Entrevista com Luis Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil

-O senhor disse que gostaria que sua sucessora fosse sua chefe de Gabinete, Dilma Rouseff. No entanto, ela sobe na aceitação popular; porém, ainda está abaixo de José Serra (PSDB) nas pesquisas. O senhor continua tendo uma fé cega em Dilma?

– Não tenho fé, mas segurança e trabalho político. Sei que Dilma pode ser a futura presidenta do Brasil. Para isso, temos que fazer um trabalho. Primeiro, o governo tem que governar. Até o dia 31 de dezembro de 2010 estarei trabalhando como se fosse o primeiro dia de meu governo. Em segundo lugar, temos que construir a coalizão, quem estará junto conosco e para isso temos um ano, um ano e pouco. Depois, temos que saber se o PT quer que ela seja a candidata. E depois temos que perguntar ao povo. Uma vez que se cumpra todo o ritual, ela poderá ser candidata. As pesquisas não me preocupam. Serra já foi candidato a presidente, a governador de São Paulo. Porém, uma coisa posso dizer: será um privilégio para esse país se houver uma disputa entre Serra e Dilma. Se os candidatos são Dilma, Serra e Ciro Gomes (PSB) também será excelente. O mesmo se também está Aécio Neves. E isso porque não vejo a ninguém de direita nessa disputa. Vejo companheiros de esquerda, de centroesquerda, progressistas. Isso é um avanço extraordinário para o Brasil.
-O que acontece no interior de um dirigente de esquerda que hoje é um exemplo de pragmatismo? Que mudanças se produziram em seu interior?
– Nunca fui marxista. Nunca. Desse mal não sofri. Minha origem política foi o movimento sindical, nas comunidades de base e no movimento social. Sempre me considerei um socialista; porém, o PT jamais definiu um tipo de socialismo porque isso era impossível. Estava o exemplo da união Soviética: esse era o modelo de socialismo que queríamos? Não, eu não queria isso porque não concebo um socialismo sem liberdade democrática, sem direito de greve, sem alternância de poder. Essa é minha ideologia. Houve um momento, nos anos setenta, em que a esquerda brasileira me dizia que eu era de direita. E a direita dizia que eu era de esquerda. Essa postura eras importante porque considerava que estava no caminho do meio. A realidade é que o trabalho que fizemos no movimento sindical me permitiu reunir um grupo muito grande de brasileiros que, nos anos setenta, participavam da luta armada, um grande número de intelectuais, os melhores que tínhamos no Brasil; um grande número de sindicalistas, com o apoio muito forte dos movimentos sociais das comunidades. Nunca tive um trauma por ter mudado de postura por ver a política com um grande pragmatismo. Na política se faz o que se pode fazer. No discurso podemos dizer o que se quer, porém no momento de executar, o limite é o possível. Eu fui eleito com um programa muito claro, firmei um compromisso com o povo brasileiro e por isso me elegeram presidente da República. E estou cumprindo. Duvido que haja em outro lugar do mundo uma relação entre o presidente e os movimentos sociais como a que existe aqui no Brasil. Eu falo com os dirigentes sindicais, com os que vivem na rua, com os travestis, com os homossexuais e tudo sem preconceitos. Por isso é que, no fundo, não mudei. Cresci e assumi mais responsabilidades. Quando somos oposição, dizemos o que cremos e pensamos que deve ser feito; porém, quando somos governo, não cremos e nem pensamos nada: fazemos ou não fazemos. E eu fui eleito para fazer.
-Existem pessoas que dizem que o senhor e Michelle Bachelet são parte de uma esquerda racional e que Chávez e Evo Morales são mais populistas. É isso mesmo? Em todo caso, como situaria a Kirchner nesse espectro?
-Não vejo dessa forma. A coisa não é tão simplista. Evo Morales é o que é devido á sua cultura política, devido às pessoas as quais ele representa. Chávez também é o que é por sua cultura política. E Kirchner o mesmo. Qualquer pessoa pode ter suas diferenças com Kirchner; porém, a verdade é que depois de muitos anos, Argentina voltou a ser um país, voltou a crescer, a gerar empregos e a ser mais respeitada. Podemos gostar ou não; porém, o dado concreto é esse. Kirchner foi o princípio de uma nova era para a Argentina, que tem sua continuidade com Cristina. Meu orgulho é que, depois de deixar o governo, teremos outro paradigma de governabilidade nesse país. E isso também é válido para Chávez. Quando escutamos as pessoas criticarem a Chávez teríamos que perguntar-lhes como era a Venezuela antes de que ele governasse. Se o povo vivia melhor, então, sem dúvida, ele seria o ‘bandido’ da história; porém, isso não é verdade. Chávez melhorou muitíssimo a vida dos pobres, exerce a democracia… Eu, pessoalmente, não agüentaria disputar tantas eleições como ele. Um referendo hoje, um referendo amanhã? Eu não agüentaria. Se aprendemos a respeitar a soberania de cada país, seus hábitos culturais e políticos, a história, sofreremos menos, teremos menos inimigos. Quando Evo Morales começou a brigar com o Brasil, os setores mais conservadores queriam que eu o ameaçasse. Sempre o tratei como se trata um companheiro. Eu sabia que o gás era dele e sabia que algum dia a situação seria compreendida, que ele mesmo perceberia que havia coisas distintas para fazer. Isso é o que está acontecendo: está muito mais maduro; conseguiu organizar sua equipe. Porque para ser governo temos que montar uma equipe. Obama não pode eleger o segundo homem de sua equipe econômica porque tem que passar pelo Partido Republicano. Por mais inteligentes que sejamos, por mais importante que seja o país, existe um tempo para amadurecer. Espero que a América Latina nunca mais retroceda.
-Se o senhor houvesse nascido na Argentina, seria peronista?
-Possivelmente teria sido peronista porque na época todo mundo era.
– O senhor entende o peronismo?
– Não entendo muito o peronismo; porém, entendo o fenômeno que significou a passagem de Perón pela Argentina. Bem como o fenômeno Getúlio Vargas no Brasil. Eles marcaram a história desses países. Getúlio não conseguiu criar no Brasil o movimento que Perón fundou na Argentina. Nós não tivemos um partido trabalhista tão forte quanto o peronismo teve. É quase uma religião. Vi gente de direita que era peronista e vi gente de esquerda também peronista. É um milagre que somente os argentinos podem fazer (risos).
 Fonte: Adital